Nova linha de pesquisa do GEDIMA cadastrada no Diretório LATTES do CNPq!!!

Caro leitor, o Gedima (Grupo de Estudos de Direito Internacional do Meio Ambiente) nasceu em 2007, no âmbito do Programa de Pós-graduação em Direito da PUC Minas. Surgiu das minhas inquietações acadêmicas acerca dos problemas e discussões ambientais tanto nacionais quanto internacionais em relação à nossa Amazônia. Com apoio do meu mestre incentivador e orientador professor Dr. Bruno Wanderley Júnior que desde o início da minha formação acadêmica acreditou nas minhas buscas, investidas e indagações, típicas de uma estudante de graduação, esta excitação acadêmica fez surgir, já na graduação, monografia (2006) intitulada Amazônia: Soberania ou Internacionalização? A coexistência da Soberania do Brasil sobre a Amazônia brasileira e os interesses globalmente considerados. Foi a causa determinante do meu ingresso no ano seguinte no mestrado em Direito Público Internacional e mais uma vez orientada pelo professor Dr. Bruno Wanderley.

Um grupo de pesquisas área jurídica ambiental era o meu sonho…O GEDIMA, portanto, surgiu como resultado de todo este processo. Nasceu no fim do ano de 2007.

Hoje coordeno juntamente com o professor Bruno Wanderley (Líder) o GEDIMA. Devidamente registrado no (DGP) Diretório de Grupos de Pesquisas do CNPq, foi inaugurando com a Linha de pesquisa intitulada:
A UNESCO e a agenda global do século XXI: Objetivo de Desenvolvimento do Milênio nº 7 – Assegurar a Sustentabilidade do Meio Ambiente. Juntamente com alunos graduandos e pós-graduandos desenvolvemos uma pesquisa neste âmbito para fundamentar os propósitos da UNESCO e sua relação com a Declaração do Milênio e seus objetivos de desenvolvimento para o objetivo de número 7, qual seja, assegurar a sustentabilidade do meio ambiente. Verificar os seus desdobramentos na América-Amazônica, tendo como ponto de ligação o programa “Educação para o Desenvolvimento”, que pode estabelecer melhor aproximação do meio ambiente com as políticas públicas ambientais e realidade social da região Amazônia.

Hoje, desenvolvo o tema, motivo de dissertação, “Direito Amazônico” (a ser defendida este semestre). Pesquisa ímpar no Brasil e no mundo que é realizada com entusiasmo juntamente com lideranças como professor Bruno da Puc Minas, já citado, e os co-orientadores como professor da Universidade Federal de Roraima (RR) Alcir Gursen de Miranda, “Caboco marajoara” mentor e incentivador da tese; e professor Lucas Abreu Barroso, da Universidade de Itaúna (MG,) ao qual aderi à sua filosofia de “emancipação social”, do “Direito como realidade e concretização das demandas sociais”.

O GEDIMA cresce a passos certeiros e com intuito de contribuir para a comunidade academia e à sociedade em geral pesquisa com bases científicas acerca da teoria e práticas plausíveis sobre as questões ambientais além de informações atuais acerca de seus estudos.

Como resultado do progresso do Grupo de pesquisas e destes estudos da pós-graduação inserimos uma linha de pesquisa sobre Direito Amazônico com mais alto compromisso perante o pensamento atual do Direito (nacional e internacional) acerca das questões ambientais, procurando trazer àquelas que se revelam já existentes principalmente acerca de sua teoria, prática e dogmática jurídica. Além de questões casuísticas sociais, econômicas, políticas (nacionais e internacionais) que envolvem toda a problemática na América-Amazônica. Eis que tomam conta de foros internacionais e nacionais.

Portanto, a linha de pesquisa Direito Amazônico desenvolverá o estudo do Direito Amazônico com intuito de delinear as bases de sua teoria e viabilidade prática desencadeado das relações entre os Estados da América-Amazônica e o Tratado de Cooperação Amazônica que fornecem fundamentos de uma interpretação jurídica regionalizada para a construção de um sistema jurídico tipicamente amazônico, com bases no Direito Constitucional e Direito Internacional.

Utilizaremos o diferencial deste blog que é utilizar o espaço para o envio de notícias e publicações pertinentes ao tema Direito Amazônico com intuito de permitir levar à todos comentários atuais sobre estas pesquisas, além proporcionar suprir as carências ao leitor do blog de notícias amazônicas sobre este tema que pouco conseguem chegar ao restante do Brasil, fora do âmbito da América-Amazônica.

Saudações acadêmicas

Alessandra Mahé
Mestre em Direito Público Internacional

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Diretor do PNUMA, Achim Steiner, acredita que, apesar dos progressos, ‘a situação ainda é alarmante’

GENEBRA, 2009

A ONU alerta que os progressos feito no Brasil para a redução do ritmo do desmatamento na Amazônia ainda não são satisfatórios. “Tivemos alguns avanços, mas a realidade é que a situação ainda é alarmante”, afirmou o principal executivo das Nações Unidas para temas ambientais, Achim Steiner. Em entrevista ao Estado, o diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) ainda alerta que “os incentivos para manter a floresta de pé ainda são menores que os incentivos econômicos para derrubá-la”. Por Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo. Eis os principais trechos da entrevista:
O Brasil divulgou nesta semana seus novos número de desmatamento da Amazônia. Como o sr. vê o ritmo de desmatamento? R:Tivemos alguns avanços, mas a realidade é que a situação ainda é alarmante. Há sinais preocupantes ainda e isso até agora não mudou. Os avanços ainda não são suficientes.
Apesar de tantos alertas e medidas, porque é que os governos na região amazônica não conseguem frear de forma suficiente o desmatamento. Simplesmente porque os incentivos para manter a floresta de pé ainda são menores que os incentivos econômicos para derrubá-la. A pressão econômica ainda é grande sobre a floresta. O Brasil e a América do Sul tem um grande recurso natural que precisa agora ganhar um valor econômico para que seja preservado. Hoje, a floresta amazônica é o grande responsável pela chuvas em grande parte da América do Sul. É uma espécie de bomba d’água. Se o desmatamento continuar, os governos terão prejuízos com a produção agrícola, com a exportação de commodities, no abastecimento de hidrelétricas e vários outros problemas econômicos. O ideal é de se tomar em conta exatamente essa realidade e dar um valor econômico real à floresta.
Na sua avaliação, as políticas do governo estão adequadas para reverter a tendência do desmatamento? R: Há um problema na tradução das informações que já existem sobre a crise ambiental em política públicas. Os esforços para traduzir tudo o que sabemos em ações terão de ser bem maiores. Há alguma chance de que o mundo tenha de fato um acordo sobre o clima até o final do ano. Isso terá de ocorrer. Trata-se do acordo mais difícil já negociado, mas ele precisa existir. E todos, ricos e emergentes, terão de contribuir para a redução de emissões de CO2. A questão é qual será a parte de cada um.

Fonte: O Estado de S.Paulo, no Estadao.com.br, em 4 de março de 2009.

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Direito Amazônico é tema de tese na PUC-MG

19/02/2009
Por: Oiran Braga

A professora Alessandra Mahé Costa Rodrigues, do Grupo de Estudos de Direito Internacional do Meio Ambiente (GEDIMA), defende no próximo dia 17 de março de 2009, dissertação sob o título “Direito Amazônico: delineamentos básicos para uma teoria condizente com a realidade regional amazônica”, para obtenção do título de mestre em direito público internacional.
A professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC/MG foi co-orientada pelo professor da Universidade Federal de Roraima Alcir Gursen de Miranda, magistrado roraimense que constrói a tese de um Direito Amazônico. O professor Gursen de Miranda, no ano de 1999, chegou a criar um Curso de Especialização em Direito Amazônico, aprovado pelo CEPE/UFRR, merecendo recomendação elogiosa da Comissão de Especialistas do Ensino do Direito, do Ministério da Educação.
Direito Amazônico compõe a grade dos cursos de mestrado e doutorado da Universidade Federal do Pará.

Congresso
No ano de 2004 foi realizado em Boa Vista, o I Congresso Internacional de Direito Amazônico, com a publicação do livro “Direito Amazônico (construindo o estado da arte); no ano de 2006, em Belém do Pará foi realizado o II Congresso e, agora, em 2009, em Boa Vista, no período de 19 a 22 de maio, será realizado o III Congresso Internacional de Direito Amazônico.

Fonte:

http://www.roraimaemfoco.com/site/content/view/6332/45/

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Novo software vai proteger Amazônia

SÃO PAULO – O INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) estréia, no início de 2009, novo software para analisar o desmatamento da Amazônia.

Chamado de Degrad, a aplicação vai processar as imagens que os satélites Landset e Cbers já captam da Amazônia Legal, porém com maior capacidade de análise que as atuais aplicações usadas pelo INPE.

Atualmente, o software do INPE só consegue identificar como “área desmatada” regiões de corte raso, ou seja, quando toda a vegetação local é retirada. A nova aplicação permitirá medir também desmatamentos parciais, ou seja, áreas onde algumas árvores são cortadas em meio a muitas outras.

Com o novo software, o INPE espera fornecer subsídios mais precisos ao Ibama e à Polícia Federal para o combate ao desmatamento na Amazônia.

Felipe Zmoginski, de INFO Online

Quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

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Ângela Portela defende educação para o desenvolvimento sustentável

“A questão ambiental, que inclui a sustentabilidade, é hoje uma preocupação mundial”, diz Ângela

A Comissão de Educação e Cultura aprovou o Projeto de Lei 3681/08, do deputado José Linhares (PP-CE), que institui no Brasil a Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável, criada pela Organização das Nações Unidas (ONU).

O objetivo é chamar a atenção da sociedade para o debate de questões ambientais. “A questão ambiental, que inclui a sustentabilidade, é hoje uma preocupação mundial. A medida é oportuna, pois está alinhada com a Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU)”, defende a relatora da proposta na comissão, deputada Ângela Portela (PT).

A proposta foi aprovada com duas emendas da relatora. Uma delas suprime artigo com o objetivo de preservar o termo educação ambiental, que o projeto pretendia modificar para “educação para o desenvolvimento sustentável”. “Essa definição está convencionada, adotada e ratificada e por isso não há necessidade de alterá-la como foi sugerido”, argumenta a relatora.

Essa emenda também suprime artigo que estabelece a disciplina Educação Ambiental como obrigatória e define seu conteúdo nos diferentes cursos. A relatora considera que essa tarefa já cabe ao Conselho Nacional de Educação.

Ângela Portela retirou também artigos que determinavam como deveriam ser os cursos de licenciatura na área de educação ambiental e disciplinas ligadas ao assunto. Ela considera que a educação ambiental deve permear todas as disciplinas e, por isso, não deve ser tratada em lei separada da Lei de Diretrizes e Bases para a Educação (LDB). Além disso, destaca a deputada, a importância da preservação da biodiversidade e do meio ambiente já está incluída na Lei de Educação Ambiental.

A ONU adotou, em dezembro de 2002, a Resolução nº 57/254, que proclama a Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável de 2005 a 2014. A medida inclui, como eixos temáticos, a cidadania, os valores comunitários, a diversidade, a interdependência, a sustentabilidade, a qualidade de vida e a justiça social.

Para o autor do projeto, a proposta só será eficiente se os gestores e os educadores do sistema formal promoverem uma educação que mostre as estreitas conexões entre os fatores ambientais, sociais e econômicos. “Às escolas cabe a missão de construir os alicerces de um novo paradigma, de um outro modelo de civilização”, pondera.

O projeto ainda será analisado, em caráter conclusivo, pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania.

 

 

(Fonte: Jornal Folha de Boa Vista, de 9 de dezembro de 2008).

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Raposa Serra do Sol: entenda o caso.

Em 15 de abril de 2005, um decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva homologou a Portaria nº 534, do Ministério da Justiça, que demarcou a área de 1.747.464 hectares como Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima.

 

Trata-se de uma área que abriga 194 comunidades com uma população de cerca de 19 mil índios dos povos Macuxi, Taurepang, Patamona, Ingaricó e Wapichana.

A União, por intermédio da Fundação Nacional do Índio (Funai), iniciou em 1992 o relatório de identificação da terra para fins de demarcação. Entretanto, a presença dos produtores de arroz vindos do sul do País, impediu a conclusão da reserva, uma vez que eles alegam possuir títulos que lhes garantem a posse das terras.

A portaria de 2005 deu prazo de um ano para os não-índios abandonarem a terra indígena. No entanto, logo após a edição deste documento e do decreto presidencial que o homologou, começaram a tramitar diversas ações na Justiça, contestando a demarcação. Somente no Supremo Tribunal Federal tramitam mais de 30 ações relacionadas a Raposa Serra do Sol.

Prejuízos a Roraima

Entre os principais argumentos estão os de que a portaria ampliou a área demarcada, que seria, inicialmente, de 1.678.800 hectares, e que a retirada dos produtores de arroz instalados na região afetaria seriamente a economia do estado, pois a cultura representaria em torno de 7% de seu Produto Interno Bruto. Roraima, maior produtor de arroz da Região Norte do Brasil, contribuiria, também, para o abastecimento dos estados vizinhos com o cereal.

Alega-se, também, que 46% da área de Roraima são reservas indígenas e 26%, áreas de conservação, o que deixaria o estado sem espaço para desenvolver-se economicamente.

Em uma das ações que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF) – a Ação Civil Originária (ACO) 1167 –, o governador do estado, José de Anchieta Júnior, pede a exclusão, em qualquer demarcação de terras indígenas, especialmente daquela da Raposa Serra do Sol, da área de fronteira até que seja ouvido o Conselho de Defesa Nacional; das sedes dos municípios de Uiramutã, Normandia e Pacaraima; dos imóveis com propriedade ou posse anterior a 1934 e das terras tituladas pelo Incra antes da Constituição de 1988; dos imóveis situados na faixa de fronteira; das plantações de arroz irrigado no extremo sul da área indígena e as áreas destinadas à construção da hidrelétrica do Cotingo.

Comunidade militar

A demarcação da área e a retirada dos não-índios da região motivou, também, manifestações contrárias na área militar. Uma das vozes a se levantar foi a do comandante militar da Amazônia, general Augusto Heleno. Em palestra no Clube Militar, no Rio de Janeiro, ele classificou a política indigenista praticada atualmente no país como “lamentável, para não dizer caótica”. Ainda conforme o general, “a política indigenista brasileira está completamente dissociada do processo histórico de colonização do nosso País. Precisa ser revista com urgência”.

Sem se referir especificamente à reserva Raposa Serra do Sol, o general criticou a separação de índios e não-índios. Ele e outros militares consideram que a política indigenista do governo brasileiro seria complacente com a atuação de Organizações Não-Governamentais (ONGs) estrangeiras que atuam na fronteira amazônica e que isso seria uma ameaça à soberania nacional.

Suspensão da retirada

No dia 26 de março de 2008, a Polícia Federal deu início à Operação Upatakon 3 *, destinada à retirada dos não-índios da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Entretanto, a Ação Cautelar 2009, proposta pelo governo de Roraima, levou o Supremo Tribunal Federal a suspender a operação, até que seja julgado o mérito da causa. Apesar de suspensa a retirada, a Polícia Federal foi mantida na reserva indígena, para evitar conflitos.

 

Houve ainda um pedido por parte do governo federal para que o STF autorizasse a Polícia Federal a recolher o armamento utilizado pelos arrozeiros para garantir a posse das fazendas. Entretanto o ministro Carlos Ayres Britto, relator do tema, negou o pedido por entender que o desarmamento de somente um dos lados em conflito não seria uma medida eficaz para garantir a paz na região.

 

 

* Saiba mais:

 

Upatakon – significa “nossa terra”, na língua Macuxi – é o nome da operação que reúne mais de uma centena de policiais federais e rodoviários federais numa força-tarefa organizada pelo Planalto, para evitar confrontos e garantir a segurança em Roraima.

(Fonte; Site do STF, em 10 de dezembro de 2008).

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Magistrados pedem que faculdades trabalhem o Direito Amazônico

 Encontro de magistrados resultou na Carta de Boa Vista, que resume o pensamento das discussões.

 

Os magistrados de toda a região Norte reconheceram na Carta de Boa Vista, documento que reflete o pensamento das discussões que aconteceram durante o I Encontro dos Magistrados Estaduais da Região Norte e III Encontro de Aperfeiçoamento dos Magistrados de Roraima, realizado na semana passada, a necessidade de instituir de forma mais célere o Direito Amazônico, voltado à realidade local.

 

Para o juiz Alcir Gursen De Miranda, esse direito deve ser estudado, interpretado e aplicado conforme a realidade dos estados que compõe a Amazônia. Ele deu como exemplo a atuação da Vara Itinerante em Roraima que, de forma prática, aplica o direito de acordo com a realidade da região, inclusive atendendo a população indígena e levando em conta as peculiaridades de cada comunidade.

 

“Enquanto temos esse lado positivo, temos um lado negativo que versa sobre a análise das terras indígenas e é aí que entra o direito amazônico. Não se pode analisar uma questão da região de forma fechada, hermética, deve-se buscar uma compreensão interdisciplinar e transversalizada e fazer uma reflexão pensando por diversas temáticas”, explicou lembrando que entre elas estão a questão indígena, ambiental, agrária, alimentar, fundiária, minerária, relações exteriores fronteiriças e de transporte.

 

Ainda conforme ele, são vários os direitos, alguns no âmbito dos direitos humanos. “Hoje as Ongs (Organizações Não Governamentais), a Igreja Católica e vários outros segmentos querem impor uma hierarquia do direito indígena sobre todos os outros. “Isso juridicamente não existe”, salientou o magistrado.

 

Na avaliação de Gursen, a Carta de Boa Vista é o momento em que a magistratura reconhece e pavimenta um caminho para que as faculdades da região implementem o direito amazônico. “A Faculdade Atual da Amazônia já trabalha com essa linha em nível de graduação e a Universidade Federal do Pará em nível de mestrado e doutorado”, informou.

 

De acordo com o magistrado, a divulgação da Carta é importante, mas ainda é necessário que haja um reconhecimento formal pelo Legislativo. “Hoje não temos nenhuma lei tratando do direito amazônico especificamente, no entanto, o Ministério da Educação, por meio da comissão de especialistas do ensino do direito, recomendou em 1998 que se investisse na questão”, concluiu.

 

CARTA – A Carta de Boa Vista, divulgada no último dia 29, também alerta que a Amazônia se constitui numa questão soberana e de Estado, para o procedimento do desenvolvimento sustentável, e conclama os Poderes da República a somar esforços para assegurar a soberania nacional sobre a Amazônia brasileira, no interesse dos povos da região, a proteção da biodiversidade e do patrimônio genético.

 

(Fonte: Jornal Folha de Boa Vista, de 5 de dezembro de 2008).

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Magistrados e o Direito Amazônico

Magistrados compreendem a necessidade de um direito de acordo com a realidade

Social da Amazônia – o Direito Amazônico

 

Associação Nacional dos Magistrados Estaduais       

 

ATA Nº 002/2008

 

Os magistrados estaduais da Amazônia, reuniram-se na cidade de Boa Vista (Roraima), Terra de Macunaima, no período de 26 a 29 de novembro de 2008, durante o I ENCONTRODE MAGISTRADOS ESTADUAIS DA REGIÃO NORTE e o III ENCONTRO DE APERFEIÇOAMENTO DOSMAGISTRADOS DE RORAIMA, promovido pelo Tribunal de Justiça do Estado de Roraima, pela Associação Nacional dos Magistrados Estaduais (ANAMAGES) e pela Associação dos Magistrados de Roraima (AMARR), ao final do evento, sob a presidência do Desembargador Mauro Campello, Vice-Presidente da Anamages, em razão da ausência justificada do Sr. Presidente, considerando o momento nacional, aprovam o presente documento, denominado Carta de Boa Vista, e que será, em forma sintética,distribuído à imprensa, contendo um resumo de tudo quanto foi debatido e aprovado, a saber:

 

1. Manifestações de solidariedade ao povo catarinense.

Os magistrados estaduais da Região Norte externam seu profundo pesar pelos infaustos acontecimentos naturais que assolam o Estado de Santa Catarina, mais uma vez devastados por fortes chuvas, com perda de centenas de vidas humanas e elevados prejuízos materiais, além da dor profunda de seu povo pela perda de seus entes queridos. Tem-se a certeza de que o povo catarinense, mais uma vez e com sua habitual capacidade de luta, em breve saberá retomar sua vida normal, retomando o progresso e o bem estar de seus filhos.

 

2. Amazônia, uma questão de soberania e de desenvolvimento sustentável.

O conclave entende que os Poderes da República devem somar esforços para assegurar a soberania nacional sobre a Amazônia brasileira, impedindo a invasão de entidades estrangeiras e seu domínio sobre os povos indígenas, coibindo com todo rigor a biopirataria e a subtração legal de nossas riquezas naturais, exercendo efetivo controle sobre as organizações não governamentais atuantes na região, em especial para manter livre de influências alienígenas a cultura indígena e a língua pátria e dos diversos povos indígenas que habitam a Região e, ainda, exercendo com o emprego das Forças Armadas um rígido controle de nossas fronteiras. A mais, devem buscar solução para os graves e constantes conflitos fundiários em toda a Região, causadores de incertezas, inibidores de investimentos e impeditivos do desenvolvimento regional norte.

Impõe-se, aos Três Poderes da República e aos Poderes Estaduais a busca célere por um plano de desenvolvimento regional bio-sustentável, amplamente discutido com as comunidades locais, cujas peculiaridades e diferenças ora se proclamam, livre de interferências externa e capaz de promover o desenvolvimento econômico-social de seus povos.

 

 3. Direito Amazônico.

Os Estados da Região Norte somam mais de 60% do território nacional, tendo como meio de comunicação o transporte aéreo e fluvial, ambos precários, sendo mal servido por rodovias e pelos modernos meios e comunicação, exigindo das autoridades e de seus agentes um conhecimento mínimo de seu ambiente e de sua cultura, sob pena de se porem risco a própria integridade física e a vida dos que, destacados para prestar seus serviços na Região, não conheçam suas peculiaridades. A mais, a prestação jurisdicional deve respeitar as condições locais, em especial quanto aos prazos, muitas vezes impossíveis de serem cumpridos dentro do quanto fixa a lei, exatamente pelas longas distâncias e precariedade dos meios de comunicação. Não se pode impor à Amazônia, de forma unitária e igualitária, as mesmas regras elaboradas para os grandes centros do país, havendo urgente necessidade de se estabelecer normas para a implantação e aplicação de um direito amazônico, como forma de estabelecer a segurança jurídica, reduzir as desigualdades, garantir a preservação dos hábitos e costumes de seus povos, tudo como forma de se dar efetividade às normas legais, propiciando uma verdadeira justiça social, como meios capazes de garantir da soberania nacional sobre toda a Região.      

 

4. Preservação do Estado de Direito.

Não se pode admitir os já rotineiros ataques às Instituições, ao seu patrimônio e as autoridades constituídas, com a destruição de fóruns, delegacias e outros bens públicos, além de se por em risco a integridade física das autoridades e do povo em geral, impondo-se ao Poder Executivo dos Estados a adoção de políticas públicas de segurança visando prevenir e, quando necessário, reprimir com máximo rigor, os atos ilícitos causadores de graves reflexos à sociedade. Da mesma forma, repudia-se a ação truculenta de alguns agentes de autoridade e de autoridades de hierarquia inferior contra Membros do Poder Judiciário e a violação de prerrogativas de direitos constitucionais da magistratura, bem como se repudia o controle ideológico de manifestação cultural dos magistrados, seja discorrendo sobre temas gerais, seja prestando jurisdição.

 

5. Reforma do Judiciário.

Somente se terá uma Justiça célere e de boa qualidade quando se enfrentar as graves deficiências de organização institucional e de funcionalidade existentes.

a) Supremo Tribunal Federal – sua composição deve ser alterada para nela se inserir um representante da magistratura de carreira, por região geopolítica;

b) Superior Tribunal de Justiça – à sua composição deve se incorporar um representante da magistratura estadual, por Estado;

c) Conselho Nacional de Justiça – sua competência deve ser estabelecida de forma clara, impedindo a invasão às áreas de competência dos tribunais e, até mesmo, do Poder Legislativo. Reclama-se a inserção de um magistrado estadual, por Estado, em sua composição;

d) Tribunais de Justiça – o número mínimo de desembargadores deve ser fixado em nove (09), atendendo-se a sua organização funcional;

e) Normatizar a permuta e remoção de magistrados entre tribunais;

f) Humanização do sistema prisional e o fortalecimento das Defensorias Públicas,enquanto organismos essenciais a efetiva prestação jurisdicional aos carentes.      

 

5.1.  Informatização e infra-estrutura do Poder Judiciário.

Reconhece-se como essencial para uma Justiça mais célere, sem perda da segurança jurídica e do direito de ampla defesa, a imperiosa necessidade de implantação de um sistema nacional de informática, estabelecendo-se como rotina o processo virtual, em todas as instâncias, experiência que no Estado de Roraima reduziu o tempo médio de tramitação dos feitos cíveis para 139 dias. Essencial dotar-se o magistrado de instrumentos tecnológicos modernos capazes de propiciar o imediato conhecimento das demandas propostas e a possibilidade de sua apreciação imediata. Ao mesmo tempo, faz-se necessário que todos os Estados estatizem os serviços judiciais, disciplinem a carreira de serventuários (plano de cargos e salários), recomendando-se o fim ao uso de mão de obra emprestada. A magistratura deve ser estruturada como instituição nacional, adotando-se uma estrutura comum: juiz substituto; juiz de direito e desembargador, fixando-se a diferença entre classes em 5% (cinco por cento).      

 

5.2. Códigos de Processo.

Impossível se pretender uma justiça célere com códigos de processo atrelados a conceitos medievais e a sucessivas modificações meramente casuísticas. Urge uma reforma ampla dos digestos processuais, reduzindo-se o número de recursos, simplificando-se a marcha processual, a extinção do foro privilegiado e de prazos diferenciados. Não se aceita o instituto da súmula vinculante, forma de engessamento do direito, devendo se dar ênfase á súmula impeditiva de recurso, meio mais eficaz para se impedir recursos repetitivos, sem se prejudicar o amplo direito de defesa.      

 

6. Associativismo.

Urge a união dos magistrados estaduais em torno de suas associações locais e da ANAMAGES para manter viva, presente e atuante, a luta pela recuperação dos direitos e prerrogativas, dentre outras:

a) a atualização monetária dos subsídios anualmente, independente de lei, uma vez que não se trata de aumento, mas mera correção da moeda;

b) o restabelecimento do adicional por tempo de serviço;

c) implantação do auxílio moradia para toda a magistratura, a exemplo do quanto já regulamentado para os membros do CNJ;

d) a eleição direta para os tribunais;

e) a não elevação da idade para a aposentadoria compulsória – medida que, se aprovada, será um golpe a se irradiar do setor público para todas as categorias privadas, em curto espaço de tempo;

f) manutenção do sistema de férias;

g) instituição de um regime previdenciário próprio.

 

7. Encaminhar proposta de logomarca para confecção de material de divulgação, para apreciação dos demais associados.

Lida e aprovada esta ata, aprovou-se o teor da Carta de Boa Vista, minutada pelos magistrados Alcir Gursen de Miranda e Roberto Wanderley Nogueira, divulgando-se à imprensa. Nada mais havendo, o Exmo. Sr. Presidente deu por encerrada a reunião,agradecendo a presença de todos e renovando seus agradecimentos ao Exmo. Sr. Des. Robério Nunes dos Anjos, Presidente do Tribunal de Justiça o Estado de Roraima, ao Exmo. Sr. Engenheiro José de Anchieta Junior, DD. Governador do Estado e todos quantos contribuíram para a realização do evento. Eu, (Antonio Sbano), secretário geral, a escrevi, sendo assinado pelo Exmo. Sr. Des. Mauro Campello e demais magistrados presentes.(ass). Des. Mauro Campello. 

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Direito Amazônico reconhecido pela Magistratura

Magistrados reconhecem o Direito Amazônico.

 

Associação Nacional dos Magistrados Estaduais

 

 

CARTA DE BOA VISTA

 

Os magistrados estaduais da Amazônia, reunidos na cidade de Boa Vista, Roraima, no período de 26 a 29 de novembro de 2008, durante o I ENCONTRO DE MAGISTRADOS ESTADUAIS DA REGIÃO NORTE e o III ENCONTRO DE APERFEIÇOAMENTO DOS MAGISTRADOS DE RORAIMA, promovido pelo Tribunal de Justiça do Estado de Roraima, pela Associação Nacional dos Magistrados Estaduais (ANAMAGES) e pela Associação dos Magistrados de Roraima (AMARR), considerando o momento nacional, aprovam o presente documento, denominado Carta de Boa Vista, e resolvem:

 

Reconhecer o “Direito Amazônico” como conceito jurídico interdisciplinar necessário à prestação jurisdicional, em âmbito regional, conforme as concepções de valor da Amazônia, por forma de garantir a segurança jurídica de seus povos;

 

Alertar aos Poderes da República que a Amazônia é uma questão soberana e de Estado e conclama-los a somar esforços para assegurar a soberania nacional sobre a Amazônia brasileira, visando a defesa dos povos da Região, a proteção da biodiversidade, do patrimônio genético e o desenvolvimento sustentável;

 

Lutar contra os recentes ataques às Instituições, sobretudo à magistratura, ao patrimônio público e às autoridades constituídas dos Poderes da República na preservação do Estado de Direito;

 

Repudiar o controle ideológico de qualquer manifestação legítima dos magistrados, dentro e fora dos autos;

 

Reconhecer como instrumento útil para uma Justiça célere, sem perda de substância jurídica e das liberdades públicas, a tecnologia da informação;

 

Defender a estatização dos serviços auxiliares da Justiça nos Estados;

 

Promover o associativismo dos magistrados estaduais em torno de suas associações locais e da ANAMAGES para manter viva, presente e atuante, a luta pela recuperação dos seus direitos e prerrogativas no concerto da magistratura nacional;

 

Postular por uma reforma do judiciário que envolva a participação nas composições do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça de todos os segmentos da magistratura nacional, respeitando a disposição geopolítica das regiões do país, bem como, pela exigência de uma composição mínima de 9 (nove) membros nos Tribunais de Justiça, e, ainda, pela humanização do sistema prisional, pela implantação de regime previdenciário próprio e fortalecimento da Defensoria Pública;

Lutar pela instituição de regime jurídico de remuneração comum para o judiciário brasileiro, assim também pela uniformização constitucional da política de entrâncias no máximo de três classes e pela revisão anual dos subsídios por meio de Resolução, bem como o retorno do adicional por tempo de serviço;

 

Repudiar o instituto da súmula vinculante e incentivar a adoção de súmula impeditiva de recurso;

 

Ao fim, os magistrados estaduais da Amazônia, colhem desta oportunidade para manifestar irrestrita solidariedade ao povo e a Justiça catarinenses neste momento de sofrimento em decorrência de acontecimentos naturais que assolam o Estado de Santa Catarina.

 

Terra de Macunaima (Boa Vista – Roraima), em 29 de novembro de 2008

 

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AMAZÔNIA – LABORATÓRIO DAS BIOCIVILIZAÇÕES DO FUTURO

OUTRA AMAZÔNIA – disponível em: http://diplo.uol.com.br/ 2008-11,a2646
Amazônia – laboratório das biocivilizações do futuro
Ignacy Sachs debaterá a Amazônia na conferência “Outra Amazônia – laboratório das biocivilizações do futuro”, que acontecerá em Brasília (12/11 – UnB) e São Paulo (17/11 – Tuca/PUC). Leia a seguir o documento que servirá como base para o debate
Ignacy Sachs

(10/11/2008)
O próximo Fórum Social Mundial se reunirá em Belém, em Janeiro 2009. A escolha do lugar é altamente simbólica.

1. Somos todos amazônidas
Somos todos amazônidas, já que o futuro da nossa espécie no planeta Terra dependerá, em boa medida, do destino que será dado à floresta – grande dispensadora de climas e reguladora do regime hídrico, além de deter uma riquíssima biodiversidade. A Amazônia não é o Jardim do Éden nem o inferno verde descrito por seus fãs e detratores. O desmatamento da Amazônia deve parar, se quisermos realmente evitar mudanças climáticas irreversíveis e deletérias. Como bem diz Virgílio Viana, “não podemos assistir passivamente à história florestal da Mata Atlântica repetir-se na Amazônia” [1]. Ao mesmo tempo, devemos rechaçar categoricamente a idéia de transformar a Amazônia numa mega-reserva natural povoada por populações indígenas esparsas. E afastar o viés fortememente malthusiano da assim chamada “ecologia profunda”, para a qual a atual população humana é várias vezes superior à capacidade de carga da biosfera [2]. Faço minhas as palavras que abrem o livro de Mark London e Brian Kelly:

“Para preservar a Amazônia, é preciso tocá-la. Não se pode erguer uma cerca a seu redor para impedir a entrada das pessoas, nem expedir ordens de despejo para os vinte milhões que nela residem. Há que usá-la com cuidado nos locais em que é possível usá-la. E há que preservá-la nos lugares em que ela deve ser preservada. Ela não é nem um museu nem um terreno a ser indiscriminadamente devastado e desenvolvido sem critério” [3].

Cerca de 25 milhões de amazônidas vivem hoje na Amazônia brasileira, muitos deles em índices de miséria, que os transforma na espécie mais ameaçada, como diz o poeta Thiago de Mello. Esse escândalo deve parar e havemos de pensar a Amazônia do futuro, com 30, 40, 50 milhões de habitantes prósperos. Sem nos descuidar da manutenção em pé da floresta existente.

Somos todos amazônidas, sem que isto justifique a internacionalização da Amazônia. Bem ao contrário, o porvir da Amazônia é responsabilidade e, direi, privilégio da Nação brasileira. Caberá a ela, no seu próprio interesse e no de toda a humanidade, colocar a Amazônia na rota de desenvolvimento ambientalmente sustentável e socialmente includente, transformando- a num laboratório pioneiro das biocivilizações do futuro.

A nossa ambição há de ser construir, a partir desse gigantesco manancial de biodiversidade, uma biocivilização socialmente includente e ambientalmente sustentável [4], baseada nos conceitos da agroecologia e da revolução duplamente verde [5], promovendo os usos múltiplos da biomassa como alimento para homens e animais, adubo verde, bioenergias, materiais de construção, fibras, plásticos, um leque cada vez mais amplo de bioprodutos da química verde saindo das biorefinarias, fármacos e cosméticos. Para tanto, devemos com urgência aprender a fazer o bom uso da natureza [6]. A melhor maneira de proteger e conservar a natureza, é conciliá-la com a realização de objetivos sociais legítimos numa atitude antropocêntrica assumida e responsável.

Em outras palavras, convém fazer da energia solar captada por meio da fotossíntese, a pedra angular da biocivilização. Não se trata de uma volta às “grandes civilizações do vegetal” da Antiguidade, de que falava Pierre Gourou, e sim de um pulo de gato (leapfrogging) alavancado pelas conquistas da ciência e tecnologia [7]. Os países tropicais, em geral, e a Amazônia, em particular, vão beneficiar-se dessa empreitada de vantagens comparativas naturais permanentes, a serem potencializadas pela pesquisa e pela organização social apropriada.

A Amazônia tem condições de prestar um duplo serviço à humanidade: ambiental e econômico. É legítimo reivindicar a remuneração dos serviços ambientais prestados pela floresta amazônica mantida em pé a todos os passageiros da nave espacial Terra, inclusive aos brasileiros que vivem fora da Amazônia, idealmente por meio de uma parcela de um imposto universal sobre o carbono emitido [8].

2. A grande transição
Convém ressituar o debate numa perspectiva macro-histórica, que vai além da longue durée dos historiadores da École des Annales, abrangendo toda a co-existência da nossa espécie com a biosfera. Clive Ponting fala de duas grandes cesuras [9]:

— a domesticação, há doze milênios, das plantas e dos animais, chamada de revolução neolítica por Gordon Childe [10] (na realidade, um processo que se estendeu por séculos);

— a introdução, a partir do século 17, das energias fósseis, primeiro o carvão, seguido de petróleo e gás, base das revoluções industriais que se estendem até hoje e que transformaram radicalmente o mundo nos planos demográfico, econômico, social e geopolítico e nos levaram à situação que vivenciamos hoje [11].

A boa nova é que estamos no começo de uma terceira grande transição – a saída da era do petróleo e, se formos inteligentes, do conjunto das energias fósseis. Não porque estas virão a faltar (o carvão é ainda abundante), mas pela necessidade urgente de reduzir as emissões de gases de efeito-estufa para mitigar as conseqüências do aquecimento global, o que nos força a buscar novos paradigmas caracterizados por uma maior sobriedade e eficiência energética e pela substituição de energias fósseis pelas renováveis [12]. Sem entrar no debate sobre o pico do petróleo, se vai acontecer dentro dos próximos anos ou demandará mais um par de decênios, é razoável supor que o seu preço não mais voltará a cair significativamente abaixo de 80 dólares o barril, facilitando assim a promoção das energias alternativas.

No imediato, o petróleo caro, repercutindo nos custos de transporte e nos preços de insumos agrícolas, se traduz pelo aumento dos preços de alimentos e uma carestia geral, agravando ainda mais a situação calamitosa das populações pobres, principalmente dos habitantes do planeta-favela que dependem para o seu sustento diário de gêneros adquiridos no mercado. Convém assisti-las com a maior urgência, sem perder de vista que preços mais remunerativos, repercutidos ao nível dos pequenos produtores, contribuiriam para a consolidação e o fortalecimento da agricultura familiar. À condição de que as multinacionais operando nos mercados de grãos não sejam as únicas beneficiadas pelo novo patamar de preços.

3. Quantas Amazônias?
Lembremos alguns dados de base. A Amazônia Legal, instituída em 1953, compreende 5,2 milhões de km², ou seja, 61% do território nacional, com uma população de 23 milhões de habitantes. O bioma amazônico propriamente dito é de 4,1 milhões de km² e uma população de 13 milhões.

Segundo um estudo recente do IBGE, a Amazônia Legal é composta de 61% de floresta (3.016.363 km²), 14% de savana, 10% de savana estépica e 15% (748.698 km²) de área antrópica. Nessa última, a pecuária responde por 8%, agricultura por 2% e a vegetação secundária por 5%. As áreas urbanas ocupam 0,05% [13].

De acordo com dados do INPE, a área desmatada acumulada é superior a 660 mil km², aproximadamente 13% da Amazônia Legal.

Um estudo do Imazon apresenta um corte diferente [14]:

O estoque de reservas minerais conhecidas foi estimado em 15 trilhões de dólares e o estoque de madeira em 8,6 trilhões de dólares [15].

De quantas Amazônias se trata para fins operacionais? O Professor Aziz Ab’Saber, individualizou 23 células espaciais [16] com base em critérios fisiográficos e ecológicos. Essas, por sua vez, se subdividem em áreas com diferentes graus de criticidade ou potencialidade. Estamos longe das divisões administrativas existentes. Daí a necessidade de elaborar estratégias e planos (sub)regionais coerentes para subseqüentemente integrá-los a um macroplano diretor de escala amazônica.

A diretriz é a busca num futuro próximo de desmatamento zero, seguido por Reflorestamento [17], com metas de redução e plantio estimadas realisticamente e consignadas num compromisso solene entre todos os protagonistas do processo de desenvolvimento: União, Estados, governos municipais, empresas, bancos, entidades da sociedade civil organizada. Para tanto, convém concentrar o máximo das atividades econômicas nas áreas já antropizadas, fazendo do Arco do Desmatamento uma reserva de desenvolvimento socialmente includente e ambientalmente sustentável e, ao mesmo tempo, valorizando no plano econômico a floresta em pé pelo manejo racional e a remuneração dos serviços ambientais.

Em outras palavras, a fronteira agrícola na Amazônia já está fechada. Não se deve tolerar de maneira alguma a sua expansão, motivada pelo fato de que o desmatamento é mais barato do que o aproveitamento das áreas alteradas. Fábio Feldmann e Roberto Smeraldi estimaram que para tornar produtivos os 160 mil km² de áreas subutilizadas, seriam necessários em 10 anos 16 bilhões de reais, dos quais 75% vindos do governo, um valor perfeitamente viável [18]. O desenvolvimento da Amazônia deve ser feito essencialmente a partir da floresta [19].

4. Quantos amazônidas amanhã?
Longe de mim a intenção de reabrir os debates de triste memória sobre o ótimo demográfico e o espaço vital (Lebensraum). Porém, não podemos nos omitir de uma reflexão sobre a ordem de grandeza da futura população amazônica que vai depender do crescimento natural e do balanço dos fluxos migratórios com o resto do país e com o exterior. Quantas oportunidades de trabalho decente serão criadas na Amazônia, compatíveis com o imperativo de manter, ou até incrementar, os serviços ambientais que a floresta amazônica presta aos brasileiros e a toda a humanidade? Que rumo tomarão as grandes cidades? Como vai evoluir a população indígena, que vem conhecendo ultimamente taxas de crescimento altas?

Não tenho, por razões óbvias, respostas a tais indagações. Irei limitar-me a observar, que as áreas rurais no Arco do Desmatamento comportam dezenas de milhões de hectares de terras aptas para agro silvicultura. Quanto melhor forem aproveitadas, tanto menor será a pressão sobre a floresta em pé. Segundo o ministro Mangabeira Unger, é possível dobrar a área atualmente cultivada na Amazônia e triplicar o produto agrícola sem tocar numa árvore [20].

Em tese, até 20 milhões de hectares de terras seriam aptas para plantar o dendê, sem cortar uma árvore da floresta nativa. O dendê gera para cada 10 hectares um emprego permanente para o ano todo para o chefe da família. Um assentamento com 5 mil hectares de dendê, o mínimo necessário para justificar a implantação de uma unidade de processamento, permitiria assentar 500 famílias.

Ao terem acesso a outros 10 hectares de terra, seus membros encontrariam oportunidades adicionais de trabalho em outras atividades agrosilvopastoris para autoconsumo e mercado, adaptadas aos ecossistemas amazônicos [21]. Isso sem falar dos empregos na unidade de processamento do dendê, nos serviços técnicos e de transporte, em pequenas agroindústrias, no comércio e nos serviços sociais e pessoais [22] da agrovila assim criada com uma população de cerca de 3 mil pessoas.

Esse modelo hipotético pode servir para outros cultivos – de preferência, perenes. Aliás, é possível que o dendê venha a ser destronado por outras oleaginosas nativas da Amazônia com rendimentos mais altos; há várias pesquisas em curso. Por outro lado, é desejável que caminhemos para modelos de agro silvicultura baseados em sistemas mais complexos de produção conjunta de alimentos, energia e insumos para a produção de um leque cada vez mais amplo de bioprodutos, com processamento local sempre que possível.

Extrapolando o número de oportunidades de trabalho decente usados no exemplo acima, a população rural da Amazônia atingiria ou até ultrapassaria nos meados do século a casa dos 20 milhões de habitantes, com pelo menos outros tantos nas cidades e um contingente bem menor dos povos da floresta e dos habitantes dos diferentes tipos de reservas ambientais e extrativistas.

Bertha Becker tem razão em dizer que a floresta amazônica se aparenta a uma “selva urbanizada” – com 69% da sua população vivendo em núcleos urbanos [23] – embora os dados relativos à urbanização estejam sobre-estimando o grau de urbanização em virtude dos critérios adotados pelo IBGE [24]. Á primeira vista, esse fenômeno próprio à Amazônia, favorece a manutenção da floresta em pé, já que “a vocação da Amazônia é o manejo florestal e a industrialização de produtos florestais” [25].

O Estado de Amazonas se orgulha de ter guardado a maior cobertura florestal pela razão de que mais de três quartos de sua população se concentra na cidade de Manaus, sede de um grande pólo industrial. A Zona Franca de Manaus, implantada em 1967, responde hoje por 80 mil empregos diretos e 80% do PIB estadual. No entanto, ela se constitui em grande parte numa porta de entrada no Brasil de produtos eletrônicos, eletrodomésticos, motocicletas, cujos produtores aproveitaram- se das benesses oferecidas pela lei que a regulamentou, severamente criticadas no passado por vários economistas. A transformação de Manaus num centro de agregação de valor aos produtos da região exportados para as demais regiões do Brasil e o mundo afora está mal começando e vai exigir no futuro grandes investimentos.

5. Novos modelos de ocupação territorial
Em vez de levar ao seu limite lógico o conceito de floresta urbanizada, convém buscar novos modelos de ocupação territorial: evitar por um lado os extremos de grandes núcleos urbanos mal articulados com o território circundante e, por outro, a dispersão excessiva das populações rurais.

As densidades muito baixas de população [26] inviabilizam ou tornam muito difícil o seu acesso aos serviços sociais de base (educação e saúde), por muito que se possa fazer, com equipamentos flutuantes sobre a rede fluvial. A título de exemplo, há cerca de 300 mil comunidades isoladas na Amazônia. Como levar a elas energia elétrica sem a qual não será tampouco possível implantar projetos de educação a distância? O modelo de oferta de energia elétrica para a região amazônica beneficiou as cidades, porém deixou fora cerca de 20 milhões de pessoas. Em contrapartida, incentivou o uso do óleo diesel para gerar energia por conta de um subsídio chamado Conta Consumo de Combustível, enquanto sistemas isolados de geração descentralizada de energia solar, mini-centrais hidrelétricas e pequenas centrais eólicas têm sido pouco difundidos [27]. Além da dificuldade de levar as amenidades da vida moderna a essas comunidades isoladas, coloca-se o problema do choque cultural das imagens transmitidas pela televisão que começa a chegar aos rincões mais afastados.

Não podemos portanto nos omitir de repensar toda a política de criação de reservas naturais e de territórios indígenas. As intenções são generosas, mas seria melhor limitar a área das reservas ambientais e, ao mesmo tempo, tornar mais efetivo o seu controle, associando a essa tarefa as populações – a Bolsa Floresta do Estado de Amazonas constitui o primeiro passo modesto nesta direção. O futuro pertence mais às formas coletivas de gestão dos recursos naturais do que ao policiamento aperfeiçoado do seu uso por agentes privados [28].

Um estudo recente da Embrapa sobre o alcance territorial da legislação ambiental chegou a uma conclusão surpreendente. Dos 4,2 milhões de km² do bioma Amazônia, menos de 289 mil km² estariam legalmente disponíveis para ocupação intensiva, seja agrícola, urbana ou industrial em virtude da extensão das reservas ambientais e indígenas já existentes, além de que novas unidades de conservação estão em estudo [29].

Ademais, o Ibama não está em condições de fiscalizar as reservas já delimitadas. As unidades de conservação federais na Amazônia compreendem 180 milhões de hectares, porém o Ibama tem um efetivo de 400 homens, ou seja um para 450 mil hectares e um orçamento de um real para cada 6 hectares [30]. Um diagnóstico elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo Instituto Chico Mendes mostrou que das 299 unidades de conservação do país, 82 não têm gestor responsável, 173 não contam com fiscais e 53 não seguem planos de manejo [31].

Por outro lado, para acabar com o “caldeirão de insegurança jurídica” (R. Mangabeira Unger) e a ilegalidade reinante, não basta organizar ações repressivas. A operação “Arco de fogo”, lançada em junho 2008 em Altamira, que causou o fechamento de mais de 3 mil postos de trabalho no município, foi mal recebida pela população. A prefeita de Altamira disse que antes de qualquer ação policial, o governo deveria enviar uma equipe de técnicos para promover a regularização ambiental, orientar o setor produtivo, promover a capacitação profissional e criar novas oportunidades de trabalho [32].

A multiplicação de reservas naturais não deve servir de biombo a uma apropriação predatória de recursos naturais alhures [33]. Por outro lado, devemos nos desfazer do mito da natureza intocada que tão fortemente impregnou o pensamento conservacionista [34].

Outro preconceito, freqüente nos meios ambientalistas, se refere à utilização das espécies exóticas, como se a disseminação de espécies úteis através do mundo não fosse um fator importante do processo civilizatório. Incriminar as espécies exóticas no Brasil, em vez de refletir sobre o grau de sua adaptação aos biomas brasileiros, não deixa de ser curioso, já que o café, o coco, a cana-de-açúcar, o dendê, a laranja, o eucalipto, a soja, carros chefes do agronegócio brasileiro, são todos oriundos de outros continentes, sem esquecer o tão importante gado zebu, originário da Índia.

Da mesma maneira, convém reabilitar as “florestas plantadas”, um termo impróprio para “plantações arbóreas”, porque estas, como já foi dito, não recriam a complexidade dos ecossistemas florestais. Assim mesmo, elas conjugam objetivos econômicos legítimos com a cobertura dos solos. Ademais, convém submetê-las a condicionamentos tais como a restauração das matas ciliares, a preservação dos rios e das nascentes, o estabelecimento de corredores ecológicos e o respeito das reservas naturais legais [35]. O potencial para uma forte expansão desse tipo de plantações arbóreas é enorme, conquanto se saiba evitar a criação de grandes latifúndios monoculturais, indesejáveis pelos seus aspectos tanto ambientais quanto socais.

Daí a importância de contratos de fomento oferecidos pelas indústrias de derivados de madeira, de papel e celulose, de biocombustíveis de segunda geração e de química verde aos pequenos fornecedores de madeira, produzida em mosaicos florestais consorciados com outras atividades agrosilvopastorí s [36].

Devemos voltar à lógica do plano Floram, lançado pelo Instituto de Estudos Avançados de USP em 1990, [37] que propunha o reflorestamento produtivo de áreas desmatadas fora da região amazônica para preservar assim a mata nativa na Amazônia. Com o avanço do desmatamento na Amazônia ocorrido nos últimos vinte anos, as plantações arbóreas devem também ser contempladas naquela região.

De uma maneira geral, na luta contra a mudança climática o nosso principal aliado são as árvores. Devemos aprender a plantá-las em todos os espaços disponíveis, rurais e urbanos, públicos e privados, para fins econômicos e ornamentais, criando uma cultura da árvore, tomando como exemplos ações sociais tais como o Chipko Movement, na Índia, os empates conduzidos por Chico Mendes, no Brasil e o Greenbelt Movement, na Kénia, que valeu o Prémio Nobel da paz a Wangari Maathari. A campanha do PNUMA (Plant for the Planet: Billion Tree Campaign) merece todo o apoio. Até agora foram plantadas cerca de 2,3 bilhões de árvores, as operações em curso levarão esse total a 3,9 bilhões e o objetivo para o ano 2009 e de alcançar 7 bilhões [38].

A respeito dos territórios indígenas já demarcados, que totalizam 13% do território nacional, surgem várias indagações. Que deve ser feito para protegê-los efetivamente? Como proceder no caso de descoberta de jazidas minerais dentro desses territórios? Como evitar a propagação do cultivo de cocaína? [39] Que propostas temos para a evolução socioeconômica das populações indígenas além da mera sobrevivência econômica? Como inserir os índios no restante da sociedade? Como protegê-los dos demais brasileiros que cobiçam suas terras e dequeles que têm preconceito contra esses povos? Ao levantar estas questões, Márcio Pereira Gomes, ex-presidente da FUNAI, insistiu sobre a necessidade de se ter instituições fortes dentro do Estado brasileiro: uma FUNAI forte, um Ibama forte, um Incra determinado, uma Embrapa com força para ajudar os povos da floresta a explorar os seus recursos sem devastação e, por fim, um Exército forte [40] A conta é grande, à altura do perigo de condenar as gerações sucessivas de índios a viver em museus antropológicos a céu aberto.

Em todo o caso, devemos rejeitar categoricamente a idéia de que a solução ambientalmente correta para o futuro da Amazônia seja a urbanização desenfreada, como se a megacidade fosse o melhor meio de proteger a floresta, como sugere Oliver Hillel, coordenador de biodiversidade da ONU. Para ele, uma São Paulo faria bem à Amazônia do ponto de vista do uso dos recursos naturais. Se o planejamento for bem feito, uma grande pegada ecológica metropolitana vale mais do que várias pegadas menores espalhadas pela floresta [41]. Como vários outros especialistas da ONU, ele acredita na inevitabilidade e nas virtudes da urbanização contínua, assimilada ao desenvolvimento, prevendo que em 2030, 70% das pessoas morarão nas cidades. Aparentemente, o conceito de cidade empregado por Hillel incluí as favelas povoadas pelos refugiados do campo [42]. Proteger a biodiversidade dessa maneira implica custos sociais exorbitantes.

Na criação de novos contínuos rurais-urbanos, não se pode evitar a construção de estradas. A experiência mostra que elas têm um impacto devastador sobre as florestas que atravessam, incentivando a colonização selvagem dos seus contornos. Para Virgílio Viana, “a saída para mitigar o impacto ambiental é a criação de zonas de descompressão em torno de novos projetos, limitando o trânsito e a fixação humana” [43]. Levar à letra essa proposta significaria adotar um padrão de desenvolvimento por enclaves perenes ou temporários no caso da mineração (até o esgotamento da jazida) [44]. Uma solução menos drástica consistiria na adoção de um planejamento detalhado do entorno das estradas, privilegiando ao longo delas projetos agrosilvopastoris com forte participação de mosaicos de plantações arbóreas de uso econômico.

6. As pedras no caminho
Pierre Gourou chamou o mundo tropical de “terras de boa esperança” [45]. Para que a Amazônia faça jus a essa denominação, é preciso começar por remover muitas pedras do caminho. Já falamos da complexidade da política de criação de reservas naturais e áreas indígenas, e do sinal equivocado do pólo industrial de Manaus, porta de entrada para produtos vindos do Exterior e não de saída para produtos amazônicos com alto valor agregado. Segue uma relação incompleta das demais pedras no caminho.

Ausência de regularização fundiária

O ministro Mangabeira Unger vem insistindo com razão sobre a necessidade urgente de promover a regularização fundiária e, dessa maneira, tirar a Amazônia do caldeirão de insegurança jurídica em que se encontra, reduzir o reino da ilegalidade e da violência que ali imperam. A União e os Estados ignoram quais são as terras que lhes pertencem, os grileiros se apoderaram de vastas extensões. Na maioria das vezes, o prejudicado é o pequeno posseiro. Os conflitos de uso do território constituem um desafio difícil às políticas públicas.

Segundo a Exame, 1,8 milhões de km² da Amazônia ainda não foram devidamente Mapeados [46]. O Incra reconheceu num estudo recente que não tem dados sobre 710 mil km² da floresta pertencentes à União, não sabe se estão na mão de posseiros ou de grileiros, muito menos o que está sendo ali produzido. O Pará lidera o ranking dos Estados com a maior quantidade de terrenos desconhecidos do ponto de visto da situação fundiária, com 288 mil km² (23% da área total do Estado) [47]. Apenas 4% das terras privadas têm títulos de propriedade válidos [48].

As técnicas modernas de georreferenciamento deveriam permitir um rápido avanço da regularização fundiária. Ao mesmo tempo convém atentar ao perigo de validar as operações de grilagem mediante distribuição de títulos legais de propriedade aos grileiros [49].

Pari passou com a regularização fundiária, deve-se reabrir o debate sobre o imposto territorial progressivo que nunca funcionou bem no Brasil e ultimamente foi relegado à esfera municipal.

Em tese, a imposição às terras improdutivas de alíquotas fortemente progressivas, em função do tamanho da propriedade e dos anos de não uso, poderia se constituir em uma ferramenta importante na condução de reforma agrária, sempre que se tome o cuidado de não aceitar o desmatamento como critério de produtividade, como ocorreu no passado. O proprietário é colocado ante a alternativa: ou bem usar produtivamente a sua terra, sujeito a critérios ambientais e sociais explícitos e gerar dessa maneira empregos e renda, ou então vendê-la, sendo que um banco público poderia exercer o direito de preempção para constituir um fundo de terras para a reforma agrária.

A regularização fundiária deverá dar um novo impulso à reforma agrária e ao fortalecimento da agricultura familiar, pondo um freio à concentração da propriedade rural na mão de latifundiários ou de fundos de investimento, figura central do hipercapitalismo rural do século 21. Em boa hora, o governo brasileiro cogita instituir barreiras legais à compra de terras por pessoas físicas ou empresas estrangeiras; fica para ver como serão tratadas as empresas brasileiras com acionistas estrangeiros majoritários.

Ao promover novos assentamentos de reforma agrária, convém tirar todas as lições do passado, tanto positivas quanto negativas. Há razões para propor logo no início a instalação de lotes familiares de produção alimentar para autoconsumo e mercado nos moldes dos projetos agroecológicos integrados e sustentáveis, advogados pela Rede de Tecnologias Sociais da Fundação Banco do Brasil e requerendo aproximadamente meio hectare por família. Ao mesmo tempo, deve-se incentivar o mutirão assistido para a construção das moradias e a busca de novos modelos de escola rural.

O “garimpo florestal”

O termo é de Virgílio Viana e denota as várias formas de apropriação predatória dos recursos florestais, que continuam a tradição secular da extração das drogas do sertão. Obviamente, deve-se por um fim a essas práticas devastadoras da floresta. Para tanto, “o manejo florestal precisa ser descomplicado e desburocratizado. Precisa combinar a sabedoria milenar de nossas populações tradicionais e indígenas com o mais avançado conhecimento científico e técnico em ecologia e manejo de ecossistemas naturais. Precisa ser apoiado por polílicas sérias, participativas, consistentes e eficazes.” [50].

Além da regularização fundiária, segundo o mesmo autor, o manejo florestal vai exigir assistência técnica, treinamento e profissionalização dos trabalhadores florestais, linhas de crédito para pequenos e médios empreendedores, apoio à agricultura famliar com sistemas agroflorestais (sem esquecer a piscicultura) energia elétrica limpa a partir de residúos florestais, promoção dos produtos não-madeireiros oriundos da floresta com especial destaque para os mercados institucionais (compra por prefeituras, Estados e União), por fim, desenvolvimento da base científica e tecnológica.

Colonização pelas patas dos bois

Com muita razão, João Meirelles Filho aponta a pecuária bovina extensiva como uma das onze bestas da apocalipse responsáveis pelo atraso da Amazônia [51], fruto combinado de políticas equivocadas de ocupação do território por parte dos governos militares, da vantagem para o pequeno posseiro de transformar em pasto sujo a roça que deixa de produzir e da cobiça dos grandes fazendeiros. Como bem diz o ministro Carlos Minc, “o pirata não é o boi, é o dono do boi, a pessoa que usa uma área preservada, uma reserva, não paga pela terra, não paga imposto, não paga nada. Ganha dinheiro criando boi em área devastada ou em área protegida.” [52].

Entre 1993 e 2005, o rebanho bovino passou de 26,6 para 63 milhões de cabeças e nos últimos três anos deu mais um salto com conseqüências devastadoras, dado o caráter extremamente extensivo dessa pecuária e a necessidade constante de seguir derrubando a floresta para criar novos pastos. Isso com resultados extremamente modestos no que diz respeito ao emprego: quando muito um por mil hectares de pecuária tradicional, que Meirelles Filho contrapõe aos 100 empregos que poderia gerar na mesma área a agricultura familiar ou os 500 postos de trabalho ao se adotar as práticas de agroecologia e permacultura.

As pastagens ocupam cerca de 700 mil km² ou 13,5% da Amazônia Legal. Nessa área, foram produzidas, em 2006, 2,7 milhões de toneladas de carne, o equivalente a 36% da produção nacional, sendo que 73% dos 74 milhões de cabeças de gado estão na mata [53]

Com a maior urgência, deve-se proclamar a moratória sobre a criação de novos pastos, obrigando ainda os frigoríficos a certificar a origem das carnes postas no mercado. Ao mesmo tempo, os pecuaristas devem ser forçados por instrumentos fiscais e creditícios a colocar um número maior de rezes por hectare e a converter os pastos assim liberados em operações de reflorestamento produtivo.

O garimpo e os enclaves mineiros

A Amazônia é uma gigantesca província mineral, cuja exploração até hoje tem trazido poucos resultados para a sua população, como tem apontado Lúcio Flávio Pinto. Um bom exemplo é o município de Parauapebas, com 7.000 km², 20 mil habitantes e um Índice de Desenvolvimento Humano de 0,741, o mais alto do Estado do Pará. Ali se encontra a melhor jazida de minério de ferro no mundo, de propriedade da Companhia Vale do Rio Doce. Em 2005, o município produziu 80 milhões de toneladas de minério de ferro e registrou uma exportação no valor de 1,3 bilhão de dólares.

No entanto, a descrição das condições de vida na cidade não condiz com esses dados econômicos. Parauapebas padece de um dos maiores índices de lepra e de leishmaniose do mundo. A taxa de desocupação é de 15%. Obviamente, a riqueza produzida no município passa por um filtro estreito e a população só recebe uma parcela mínima da renda gerada pelas exportações. “Se isso acontece no mais antigo município mineiro da região, de cujas entranhas a Vale do Rio Doce, a segunda empresa do mundo no setor e a maior empresa privada da América Latina, extrai ferro há vinte anos, qual será o destino dos novos municípios mineiros que se multiplicam no Sul do Pará?” [54].

A situação é ainda pior no município de Curionópolis onde, no fim dos anos oitenta, 80 mil pessoas acorreram para explorar o garimpo de ouro da Serra Pelada. O desemprego é de 16,35%, dois terços da população do município têm uma renda inferior a 2 salários mínimos. O maior empregador local é a Prefeitura, que emprega 650 funcionários, gastando com a folha de salários quase toda a sua renda.

No momento em que a Vale do Rio Doce anuncia novos e gigantescos investimentos na mineração e na indústria siderúrgica, que poderão exaurir em um século e meio jazidas que deviam durar 400 anos, as perguntas que se deve fazer são: “O Estado recebe uma compensação compatível com a exaustão do mais rico depósito de minério de ferro na crosta terrestre? A sua forma de exploração é o que de melhor os paraenses podem conseguir no que respeita a transformação da matéria prima?” [55].

O enquadramento dos enclaves mineiros, o aproveitamento dos royalties e do excedente tributário, a maximização do valor agregado in loco aos minérios mediante a instalação das indústrias processadoras constituem temas de maior urgência para a Amazônia, dado o balanço negativo das experiências do passado [56]. Essas, no Pará, se assemelham às de vários países africanos e asiáticos: enclaves mineiros exportando a matéria-prima para o Exterior, isentos de impostos como maneira de atrair o investimento estrangeiro, criadores de pouquíssimos empregos diretos e ainda por cima abastecidos com energia elétrica vendida abaixo do custo, como no caso do processamento de bauxita. Isso sem falar no endividamento do país para construir as hidrelétricas.

O aproveitamento das jazidas minerais coloca ainda problemas de difícil solução quando estas ocorrem nas reservas naturais ou nos territórios indígenas. Estes devem ser solucionados caso por caso com a participação das mais altas instâncias do poder e em plena transparência. O mesmo diz respeito ao aproveitamento do imenso potencial hidrelétrico da região do qual o Brasil não pode prescindir.

Cooperação internacional deficiente

O futuro da Amazônia passa pela cooperação estreita entre todos os países da bacia amazônica. O Tratado da Cooperação Amazônica não está cumprindo a tarefa para a qual foi constituído, em particular na área de cooperação científica e técnica. Esse impasse deve ser solucionado rapidamente. Existem enormes perspectivas para as cooperações Sul- Sul entre os países do trópico úmido.

7. Reinventar o Estado desenvolvimentista
A remoção das pedras no caminho e a elaboração de uma estratégia de desenvolvimento includente e sustentável para a Amazônia não se farão sem o concurso de um Estado desenvolvimentista, enxuto porém atuante, voltado à compatibilização dos objetivos sociais de desenvolvimento com a preservação da floresta nativa e da sua biodiversidade, o maior trunfo da Amazônia para promover um crescimento econômico includente, sustentável e sustentado.

Para tanto, o Brasil precisa com urgência reaprender a planejar e a se dotar de instituições apropriadas, tanto em nível federal quanto regional.

A contra-reforma neoliberal, baseada na teologia do mercado, se esforçou durante os últimos trinta anos para solapar o conceito de planejamento na sua ambição legítima de organizar o debate socioambiental sobre o projeto nacional a longo prazo e as estratégias necessárias para realizá-lo. Os órgãos de planejamento passaram a elaborar e administrar o orçamento, função indispensável, porém que não se substitui o planejamento propriamente dito. Com a implosão de Wall Street, que, como disse Joseph Stiglitz, representa para a teologia do mercado o que a queda do muro de Berlim significou para o socialismo real [57], o debate sobre a reinstitucionalização do planejamento a longo prazo no Brasil em geral, e para a Amazônia em particular, deveria encontrar um clima mais propício.

Devemos sair do “curto prazismo” [58], tão ao gosto dos políticos que sempre estão se preparando para a próxima eleição, evitando ao mesmo tempo a armadilha de um planejamento burocrático e autoritário, sem espaço para o diálogo entre os protagonistas do processo de desenvolvimento com vista a soluções negociadas.

Bem ao contrário, convém estimular esse diálogo e para tanto instaurar fóruns de desenvolvimento local com a participação de todas as forças vivas – órgãos públicos, entidades da sociedade civil organizada, universidades. Depois de algum tempo e de experiência ganha, esses fóruns irão se transformar em conselhos consultivos e, numa etapa ulterior, em conselhos deliberativos. O recente programa Territórios da Cidadania poderá dar ensejo a esse tipo de evolução institucional. Ao mesmo tempo, devemos nos proteger da ilusão, inspirada pelo pensamento anarquista, de que a soma de projetos locais pode substituir um plano de desenvolvimento nacional. A realidade é mais complexa e requer uma interação repetida entre os três níveis de desenvolvimento e de planejamento: o local, o regional e o nacional. Precisamos com urgência reintroduzir o planejamento nos currículos universitários.

No que segue, serão examinados alguns instrumentos indispensáveis aos planejadores da Amazônia.

Zoneamento econômico ecológico

Essa é a principal ferramenta para inscrever no espaço as estratégias de desenvolvimento, fazendo com que o crescimento econômico que as deve sustentar não entre em contradição com os postulados de prudência ambiental, da maior importância no caso da Amazônia por razões que já foram expostas. O zoneamento deve se concentrar na proscrição de atividades que atentam contra o meio ambiente ou estimulam o desmatamento, sem cair na armadilha que consistiria em determinar vocações econômicas. O geógrafo francês Jean Tricart [59], que muito andou pela Amazônia, observava com razão que as vocações mudam à medida que avançam os conhecimentos científicos e técnicos. Considerado durante muito tempo como imprestável para a agricultura, o cerrado brasileiro passou a ser a principal fronteira agrícola do Brasil quando os técnicos da Embrapa identificaram os meios para corrigir os seus solos. Mapas que indicam a vocação de uma região passam a ser um freio ao progresso técnico.

Vários Estados estão elaborando o zoneamento econômico ecológico. Seria importante estabelecer prazos definitivos para a conclusão dessa tarefa em todo o território amazônico, já que se trata de uma ferramenta essencial para o planejamento. Ao mesmo tempo, convém clarificar os procedimentos nos quais o zoneamento será utilizado. Unicamente por meio de licença ambiental? Como ficam então os critérios sociais? Na concessão de créditos públicos? E também privados? A partir de que tamanho da propriedade rural? O limite de 80% de reserva legal será mantido a despeito das críticas que lhe vêm sendo feitas? De que maneira serão incluídos os assentamentos de reforma agrária? [60]

Certificação socioambiental

A certificação socioambiental poderá vir a ser tão importante quanto o zoneamento econômico ecológico, se for devidamente implantada.

A certificação da madeira pelo Forest Stewardship Council vem tendo um impacto positivo apesar do seu alcance por enquanto limitado. Apenas uma parcela da produção florestal brasileira recorre aos seus serviços. Daí a importância do protocolo de intenções, assinado recentemente entre o MMA e a FIESP, pelo qual a indústria madeireira assumiu o compromisso de se certificar da legalidade de todos os produtos florestais de origem amazônica processados em suas unidades [61]. Esse compromisso vem completar os que foram assinados pelo MMA com os exportadores de soja e madeira, com a Vale do Rio Doce, que passou a exigir certificados de origem do carvão vegetal para vender minério de ferro, e com o bancos oficiais que se comprometeram a dar um tratamento preferencial aos investimentos baseados em processos de produção limpa e ambientalmente sustentável.

Uma iniciativa tripartite mais ambiciosa visa criar o primeiro sistema mundial de verificação voluntária e certificação independente da atividade agropecuária, reunindo o setor produtivo, representado pelo ARES (Instituto para o Agronegócio Responsável), os consumidores, representados pelo Observatório Social da CUT, e os ambientalistas, agrupados ao redor do Instituto de Pesquisas Ecológicas. O projeto pretende aplicar 5 princípios e 15 critérios socioambientais, usando a propriedade rural como unidade de monitoramento [62].

A nível internacional, uma mesa-redonda, presidida por Claude Martin, antigo diretor- geral da WWF, e sediada no Instituto de Tecnologia de Lausanne, está empenhada em definir os padrões e os esquemas de certificação dos biocombustíveis sustentáveis. Por outro lado, duas empresas suecas propuseram critérios ambientais, climáticos e sociais a serem usados para a emissão de um certificado de garantia de qualidade do etanol [63]. O Banco Interamericano de Desenvolvimento deve também iniciar um projeto piloto de certificação do etanol da cana. Por sua vez, o grupo de biocombustíveis dos parlamentares do G8 + 5, liderado pelo deputado Antônio Palocci, propõe a criação de uma certificação única [64].

Esses exemplos mostram o interesse pela certificação socioambiental. No entanto, esta tem se baseado até agora essencialmente na participação voluntária das empresas, motivadas por sua responsabilidade social. Para ser efetiva, a certificação deverá adquirir com o tempo um caráter compulsório, por significativos que sejam os compromissos voluntários assumidos nos diferentes níveis da cadeia de suprimento: produtores primários, processadores, exportadores, financiadores e, por último, os consumidores esclarecidos. Estes podem funcionar como uma força de pressão significativa para moralizar as cadeias de produção ao exigirem selos de qualidade socioambiental nos produtos consumidos.

O bom funcionamento da certificação socioambiental vai depender de vários fatores:

— a pertinência dos critérios escolhidos para a avaliação dos produtos e dos processos de produção;

— a idoneidade dos órgãos certificadores e o grau de controle exercido sobre eles por órgãos públicos e entidades da sociedade civil organizada;

— a abrangência do processo de certificação – toda a produção para o mercado ou unicamente os produtos exportados?

— a passagem da certificação voluntária à certificação compulsória;

— o financiamento da certificação – a cargo exclusivo dos produtores ou com a participação dos orgão públicos, sobretudo quando se trata de pequenos produtores?

— a educação dos consumidores para que passem a exigir os selos de certificação nos produtos adquiridos.

Pelo visto, temos ainda muito trabalho à frente.

Discriminação positiva dos agricultores familiares

A geração de oportunidades de trabalho decente para os pequenos agricultores e seus familiares só acontecerá mediante um feixe de políticas públicas coordenadas, que juntas funcionarão como uma discriminação positiva dos protagonistas mais vulneráveis do processo de desenvolvimento. Estas compreendem:

— antes de mais nada o acesso à terra, que pode se dar pela reforma agrária, pela regularização das parcelas dos pequenos posseiros (até que limite de área?) e pela colonização, esta com financiamentos públicos especiais reservados à aquisição de pequenas propriedades submetidas a regras rigorosas de manejo ambiental;

— acesso aos conhecimentos – capacitação e assistência técnica permanente na implantação de sistemas agroflorestais, adaptados aos biomas amazônicos, de produção de alimentos, bioenergia e demais bioprodutos e implantação de escolas rurais profissionalizantes ;

— acesso às tecnologias apropriadas [65], para a implantação de sistemas integrados de produção de alimentos e bioenergia, incluindo equipamentos para a produção de energia para uso local e para pequenas agroindústrias, lançando inclusive mão de equipamentos móveis instalados sobre barcos de maneira a facilitar o seu deslocamento por via fluvial;

— acesso a créditos preferenciais do PRONAF, cujo funcionamento está sendo reexaminado para torná-lo mais flexível e melhor ajustado às necessidades dos distintos grupos de agricultores familiares;

— acesso aos mercados, com especial destaque para os institucionais – merenda escolar, abastecimento de hospitais e quarteis etc.

Ao mesmo tempo, convém incentivar o cooperativismo e todas as formas de empreendedorismo coletivo suscetíveis de fortalecer a posição dos agricultores familiares no mercado e nas suas relações com os poderes públicos.

O fortalecimento da agricultura familiar passa, antes de mais nada, pelo respeito dos conceitos de segurança e soberania alimentar e a necessidade de compatibilizar com esse objetivo as demais produções, a começar pelos biocombustíveis. Esse não é o lugar para examinar em detalhe a polêmica que se instaurou a esse respeito. Irei me limitar em dizer que a compatibilização da segurança alimentar com uma forte expansão da produção dos biocombustíveis é perfeitamente viável no Brasil, inclusive na Amazônia, conquanto sejam respeitadas as condições seguintes:

— ênfase sobre sistemas integrados de produção de alimentos e energia e não justaposição de cadeias de produção, com especial destaque para a integração da bioenergia com a pecuária estabulada ou semi-intensiva;

— aproveitamento sempre que possível das terras degradadas que não se prestam à produção de alimentos;

— passagem rápida à segunda geração dos biocombustíveis, ou seja, o etanol celulósico que vai permitir o aproveitamento de todos os resíduos agrícolas e florestais, gramíneas e espécies arbóreas de crescimento rápido, consolidando a complementaridade entre a produção de alimentos e de bioenergia.

O ponto nevrálgico não está na competição por solos agricultáveis escassos, nem pela água, e sim na escolha do modelo social no qual se fará a expansão dos biocombustíveis: pela agricultura familiar, fortalecida pelo aumento de oportunidades de trabalho decente e de renda assim geradas, ou, ao contrário, por meio de uma agricultura altamente mecanizada em latifúndios, que se traduziria por um aumento do fluxo de refugiados do campo para as favelas urbanas? [66]

Pesquisa – a chave do futuro [67]

Eminentes cientistas da Academia Brasileira de Ciências redigiram recentemente um documento intitulado Amazônia: Desafio Brasileiro do Século XXI – A Necessidade de uma Revolução Científica e Tecnológica, baseado na premissa de que “a valorização econômica dos recursos florestais e aquáticos da Amazônia se coloca como um marco fundamental para sua conservação”. A Amazônia “representa um gigantesco potencial cientifico, econômico e cultural, cuja transformação em riqueza está intrinsecamente relacionada à disponibilidade e geração continuada de conhecimentos e tecnologias adequadas.”

Para tanto, faz-se necessária uma mudança radical no cenário de Ciência, Tecnologia e Inovação, que passa pela criação de novas universidades e institutos científico-tecnoló gicos, a expansão da pós-graduação na região amazônica e programas para atrair pesquisadores vindos de outras regiões do Brasil e do Exterior.

A Amazônia possui hoje apenas 140 cursos de mestrado acadêmico, 39 de doutorado e 6 de mestrado profissionalizante, ou seja, 4,8% dos 3854 cursos existentes no Brasil em 2007, com 2800 doutores atuando na região. Os autores propõem a criação de 3 novos institutos e 3 novas universidades, com um investimento adicional de 30 bilhões de reais em 10 anos, correspondente a 0,2% do PIB.

Como já foi dito, a extraordinária biodiversidade da Amazônia [68] a predestina a funcionar como um laboratório das biocivilizações do futuro, sem perder de vista a necessidade de alcançar o quanto antes a meta de desmatamento zero. A condição é de avançar nas propostas da exploração racional da floresta baseadas nos conceitos de agroecologia, de implantação nas áreas desmatadas de sistemas integrados de produção de alimentos, biocombustíveis e outros bioprodutos adaptados aos diferentes biomas amazônicos, e de tirar o máximo proveito da abundância das águas para fazer da Amazônia uma das pátrias da “revolução azul”, combinando a piscicultura com a criação de animais anfíbios e de algas – matéria-prima para a terceira geração dos biocombustíveis.

No caso brasileiro, não se deve contrapor a economia do conhecimento à economia dos recursos naturais, bem ao contrário. Como diz K. Bound, “a inovação brasileira se destaca mais quando a sua população aplica sua engenhosidade aos seus recursos naturais. [69]”

O Programa-Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PPG7), lançado em 1992, na cúpula dos Países Desenvolvidos, em Huston, deu lugar a uma chuva de pequenos projetos demonstrativos, muitos dos quais bem sucedidos, porém numa escala extremamente reduzida e com muita burocracia [70]. A supor que esses países estejam ainda dispostos a cooperar no desenvolvimento da pesquisa amazônica, a abordagem por projetos deve ser abandonada em favor de programas plurianuais.

Poderíamos pensar no esquema seguinte:

— os países da OCDE criam um fundo de ordem de 2 bilhões de dólares iniciais, administrado pelo Banco Mundial ou outra instituição escolhida pelos doadores, com perspectiva de aumento para 5 bilhões em 10 anos, assegurando ao Brasil um rendimento inicial mínimo de ordem de 100 milhões de dólares por ano;

— as fundações estaduais de apoio à pesquisa dos Estados Amazônicos (e/ou o Governo Federal) contribuem uma soma equivalente;

— a fim de manter a massa crítica de pesquisadores presente nos institutos existentes ou a serem criados na Amazônia, completa-se o dispositivo com um esquema de bolsas para mestrandos e doutorandos vindos de outras regiões brasileiras;

— em paralelo, são organizados fóruns da Amazônia nas universidades fora da região amazônica para incentivar o interesse dos estudantes nos temas de pesquisa relativos a essa região do Brasil;

— os fundos são atribuídos aos institutos e às universidades amazônicas em base a programas de pesquisas plurianuais sobre temas prioritários para o desenvolvimento da região;

— os resultados são avaliados periodicamente por uma comissão internacional de especialistas, com possibilidade de redução ou cancelamento do financiamento externo em casos de desempenho insatisfatório.

Financiamento

O financiamento da pesquisa não esgota o assunto da contribuição internacional à manutenção da floresta em pé e ao desenvolvimento ambientalmente correto da Amazônia, como forma de retribuir os serviços ambientais prestados pela região a toda a humanidade.

O protocolo de Kyoto deu início aos assim chamados mercados de créditos de carbono, um esquema que recentemente foi objeto de críticas legítimas. A construção artificial desses mercados depende da alocação inicial de quotas de emissão de gases de efeito-estufa às empresas poluidoras. Estas podem vender os créditos não utilizados às empresas que ultrapassaram a sua quota. A outorga de quotas por demais generosas equivale a oferecer às empresas poluidoras um lucro extraordinário provindo da venda da quota não consumida, o que tem ocorrido com freqüência na Europa. Um outro tipo de efeito perverso aconteceu com as usinas geradoras de energia elétrica que tiveram que recorrer ao mercado de créditos de carbono, mas, graças à sua posição monopolística, puderam transferir o custo adicional aos consumidores. Assim, estes passaram a financiar o direito a poluir dos fornecedores de energia elétrica [71].

Enquanto o Mecanismo de Produção Limpa vigorar, devemos continuar a aproveitá-lo por razões pragmáticas. Porém, o futuro pertence a formas mais justas de co-financiamento da da conservação das florestas tropicais, por fundos internacionais que não estão vinculados aos créditos de carbono.

Um passo importante nessa direção foi dado pelo governo da Noruega, que decidiu colocar à disposição dos países tropicais que lutam contra o desmatamento 545 milhões de dólares por ano no período 2008 – 2012. Em recente visita ao Brasil, o primeiro-ministro da Noruega anunciou a aplicação de 1 bilhão de dólares até 2015 no Fundo da Amazônia, instituído no Brasil em agosto último e que será gerido pelo BNDES. Este está autorizado a captar recursos públicos e privados a partir de doações voluntárias, nacionais ou estrangeiras, para investir em ações de prevenção, monitoramento e combate ao desmatamento. O Japão, a Suécia, a Alemanha, a Coréia e a Suíça já demonstraram interesse pelo novo Fundo [72].

As Nações Unidas, apoiadas pelo Governo da Noruega, acabam de lançar um programa intitulado REDD (Redução de Emissões do Desmatamento e de Degradação das Florestas) que será implementado pelo PNUMA, PNUD e FAO. O Brasil não está na primeira leva dos países em que o programa vai atuar [73].

Mesmo na hipótese mais otimista, os financiamentos externos representarão uma parcela modesta do esforço que deverá ser consentido pelos bancos públicos e privados brasileiros. Estes serão chamados a desempenhar um papel decisivo no desenvolvimento includente e sustentável da Amazônia, por várias razões:

— o volume dos recursos destinados aos investimentos e ao custeio da produção;

— a diversificação dos produtos adaptados às diferentes categorias de clientes, com créditos preferenciais para os agricultores familiares, os pequenos negócios, as cooperativas e demais entidades da economia solidária;

— a função estratégica que, nas economias mistas, cabe aos bancos no processo de desenvolvimento ao condicionar os empréstimos pelo respeito rigoroso do zoneamento econômico ecológico, da certificação socioambiental e das demais políticas públicas;

— por fim, o seu engajamento em projetos de caráter não comercial no exercício da sua responsabilidade social [74].

Nesse contexto, foi importante a revisão em junho 2008 do Protocolo Verde, que contou com a participação dos representantes do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES, Banco da Amazônia, Banco do Nordeste e do governo federal. O protocolo inclui sete princípios norteadores pelos quais esses bancos públicos se comprometem a empreender políticas e práticas bancárias que sejam precursoras, multiplicadoras, demonstrativas ou exemplares em termos de responsabilidade socioambiental [75].

8. As andorinhas
Não estamos partindo de zero, como o mostram várias iniciativas recentes tomadas pelo governo e pela sociedade.

O ministro Roberto Mangabeira Unger foi encarregado de coordenar um ambicioso plano, Amazônia Sustentável, destinado, segundo suas palavras, “a reconstruir o Brasil ao reinventar a Amazônia”. Suas premissas coincidem em grande parte com as idéias expostas acima [76]. Sem prejulgar dos resultados desse empreendimento, surgem duas questões:

— como o plano será compatibilizado com o PAC Amazônia Legal, que contempla vários investimentos infraestruturais cujos impactos ambientais têm provocado uma intensa polemica?

— de que maneira deve ser institucionalizado o planejamento estratégico da Amazônia para ser efetivo, lembrando que o planejamento é um processo contínuo de diálogo e negociação com todos os protagonistas do processo de desenvolvimento e não se reduz de maneira alguma à elaboração de um plano? A rigor, o plano é apenas um pretexto para o planejamento contínuo.

O Fórum de Governadores da Amazônia Legal, que se reuniu pela primeira vez em 30 de maio 2008, em Belém, promulgando a carta do Pará, será um elo importante dessa institucionalização, junto com o Conselho Deliberativo da SUDAM, no qual os governadores vêem a pedra angular de um Conselho da Amazônia como “alta instância capaz de efetivar as políticas públicas integradas necessárias à inclusão social e ao desenvolvimento sustentável”, ao mesmo tempo que se fortalece institucionalmente a SUDAM.

O ano em curso viu também a consolidação de várias políticas nacionais já mencionadas em matéria de combate ao desmatamento, como a moratória da soja e sua extensão para madeireiras e frigoríficos, e a promoção de produtos da sociobiodiversidade . Da maior importância, se for efetivamente aplicado, é o princípio da co-responsabilidade das empresas pelos crimes ambientais cometidos pelos seus fornecedores, que entrou em vigor a 15 de junho, abarcando grandes empresas com ênfase em frigoríficos, siderúrgicas, madeirreiras e a indústria alimentícia [77].

Em paralelo, convém mencionar a criação, por iniciativa do Instituto Ethos, do Fórum Amazônia Sustentável, congregando organizações da sociedade civil, movimentos sociais, instituições acadêmicas e de pesquisa e as empresas privadas e públicas que aderiram à Carta de Compromisso aprovada em Belém, em 8 de novembro 2007. Em junho 2008, por iniciativa do Fórum, foi assinado um pacto pelo desenvolvimento sustentável do Pará. Em outubro 2007, nove organizações não-governamentais [78] lançaram em Brasília (DF), o Pacto Nacional pela Valorização da Floresta e pelo Fim do Desmatamento na Amazônia. A proposta visa um compromisso entre diversos setores do governo e da sociedade brasileira que permita adotar ações urgentes para garantir a conservação da floresta Amazônica. O pacto pressupõe o estabelecimento de um regime de metas anuais de redução progressiva da taxa de desmatamento da Amazônia, que seria zerada em 2015. Para isso, as ONGs estimam ser necessários investimentos da ordem de 1 bilhão de reais por ano, vindos de fontes nacionais e internacionais. Os incentivos econômicos serão voltados para o fortalecimento da governança florestal (monitoramento, controle e fiscalização; promoção do licenciamento rural e ambiental para propriedades rurais; criação e implementação das unidades de conservação e terras indígenas), para otimizar o uso de áreas já desmatadas e compensar financeiramente os atores sociais responsáveis pela manutenção das florestas.

9. O compromisso de Belém
Para os otimistas, todas essas andorinhas anunciam a chegada da primavera. Os céticos dirão que se trata, na maioria dos casos, de jogo de cena e que, uma vez bem informados, os otimistas passarão a ser pessimistas.

Penso que a razão está com ambos. Vivemos os primeiros momentos da grande transição. Convém mobilizar todas as forças vivas para não desmentir os sinais da primavera e fazer pressão sobre todos os protagonistas do processo de desenvolvimento para que as sinalizações positivas, porém frouxas, se transformem em compromissos concretos, com prazos e números. Não se pode esperar que um projeto de longo prazo para a Amazônia surja da noite para o dia. É razoável dar-se dois anos para elaborar um projeto Amazônia Includente e Sustentável e submetê-lo a um amplo debate no Congresso e com todos os setores da sociedade, colocando-o no centro da política brasileira. Para tanto, poderia contribuir a organização de um movimento “A Amazônia é nossa”, similar ao “O petróleo é nosso”, que mudou radicalmente os destinos do Brasil nos anos 50 do século passado.

Aos jovens que não tiveram a felicidade de viver esse episódio extraordinário da História brasileira, convém lembrar que o ante-projeto da Petrobras continha dezenas de lacunas legais, todas destinadas a permitir às grandes empresas petroleiras assumirem o controle efetivo do petróleo brasileiro. No entanto, essas lacunas foram removidas, uma por uma, pelo Congresso, pressionado pelo movimento popular, sustentado por uma ampla frente de políticos e militares nacionalistas, desde o ex-presidente Artur Bernardes ao Partido Comunista ilegal.

Reiterando, cabe à Nação brasileira a responsabilidade e o privilégio de inventar uma Amazônia, laboratório e berço pioneiro das biocivilizações do futuro, dispensadora de serviços ambientais para toda a humanidade. Os obstáculos são muitos. Não faltarão tentativas de seqüestrar o processo de desenvolvimento por parte de algumas megaempresas privadas, nacionais e estrangeiras, movidas por seus interesses egoístas. Para estar à altura do desafio, é necessário criar um amplo arco de alianças, no qual não deveriam faltar os movimentos sociais, que acreditam na possibilidade de construir um outro mundo e que se reunirão em Belém em janeiro próximo.

[1] Viana, V., As florestas e o desenvolvimento sustentável na Amazônia (2a edição, Editora Valer, Manaus, 2007), p.19. Sobre a destruição da Mata Atlântica, ver o clássico livro de Warren Dean, A ferro e fogo – a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira, Companhia das Letras, São Paulo, 1996.

[2] Ver por exemplo Lovelock J., Vingança de Gaia, Intrínseca, Rio de Janeiro, 2006.

[3] London, M. & Kelly, B. A última floresta – a Amazônia na era da globalização, Martins Editora, São Paulo, 2007.

[4] Sobre o assunto, ver Sachs, I. Desenvolvimento includente, sustentável, sustentado, prefácio de Celso Furtado, (Rio de Janeiro, Garamond Universitária- SEBRAE, 2004) e Rumo à ecossocioeconomia – Teoria e prática do Desenvolvimento, organizador: Paulo Freire Vieira, (São Paulo, Cortez. Editora, 2007).

[5] Também chamada de “Evergreen revolution” pelo conhecido agrônomo indiano M. S. Swaminathan. A ambição é de conjugar a produtividade da agricultura com o respeito da natureza pela utilização de técnicas acessíveis aos agricultores familiares.

[6] Esse é o título de um belo livro de Catherine e Raphaël Larrère, Do bom uso da natureza: para uma filosofia do meio ambiente, (Lisboa: Instituto Piaget D. L., 2000).

[7] A ênfase sobre a fotossíntese não significa evidentemente que se deva abrir mão de todo o leque de energias renováveis ou renunciar totalmente ao uso do carvão, sempre que se aproveite o gás carbônico resultante da sua queima como matéria-prima de fotossíntese. Aparentemente, um grande passo acaba de ser dado a caminho do aproveitamento da energia solar ao resolver a questão do seu armazenamento. Inspirados pelo processo fotossintético, os cientistas do MIT propuseram o uso da energia solar para dividir a água em oxigênio e hidrogênio e recombinar esses elementos numa célula de combustível, para produzir eletricidade nas horas em que o sol não brilha (Appropriate Technology, volume 35, n° 3, 2008).

[8] A instituição de um tributo sobre o carbono pode ser coordenada com a redução dos encargos fiscais sobre o trabalho, evitando assim um aumento da carga tributária e sinalizando simultaneamente a necessidade de reduzir as emissões de gases de efeito-estufa e de ampliar as oportunidades de trabalho decente.

[9] Ponting C., A Green History of the World: The Environment and the Collapse of Great Civilizations, (Penguin Books, Londres, 1993).

[10] Childe, G., Man Makes Himself, (Oxford, Oxford University Press, 1936). Ver também o outro clássico Sauer, C.O. Agricultural Origins and Dispersals, (New York, American Geographical Society, 1952).

[11] Este não é o lugar para proceder a um balanço de quatro séculos tumultuados. Limitemo-nos a mencionar pêlemêle: a explosão demográfica, a urbanização desenfreada, os extraordinários progressos de ciência e tecnologia e o aumento espetacular da riqueza e do conforto, acompanhados pelo agravamento das desigualdades sociais abissais (entre países e dentro de países, entre ricos e pobres), o ascenso e a queda do sistema colonial, a experiência fracassada do socialismo real, duas guerras mundiais mortíferas, o horror dos campos de concentração e extermínio. Esses processos culminaram num acumulo das dívidas ambiental e social, que põem em risco o futuro da nossa espécie confrontada por dois desafios: a ameaça de mudanças climáticas deletérias e irreversíveis, provocadas em boa parte por ações antrópicas, e o problema não resolvido de um déficit profundo de oportunidades de trabalho decente.

[12] Ver Sachs I., “A revolução energética do século XXI”, Estudos Avançados, 21 (59), 2007, e The Biofuels Controversy, UNCTAD, Genev

Desde Publicações, 2008/11/17 at 9:29 PM

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